REPORTAGEM - DENÚNCIA - A MORTE É MINHA VIZINHA

Tragédia Ronda Favelas Erguidas ao Longo de Ferrovia

Texto e Fotos Por Carlos Latuff

Muito já foi dito sobre a exclusão social no Brasil, mas pra onde vão todos esses excluídos? São jogados pelo governo pra debaixo do tapete e pra debaixo do viaduto, ou nas encostas condenadas pela defesa civil, ou ainda a beira de rios que transbordam com as chuvas. Para estas pessoas que vivem em áreas de risco, o Sistema não lhes dá outra alternativa além de ter a morte como vizinho.
É o caso das Favelas Parque Boa Esperança, Parque Alegria, Herédia de Sá, Arará e Jacarezinho, localizadas na zona norte do Rio, que graças a um crescimento desordenado acabaram praticamente engolindo 4 km de uma estrada de ferro que fazia parte da Rede Ferroviária Federal (RFFSA) e que atualmente é administrada pela empresa MRS Logística, uma das vencedoras dos leilões que privatizaram as ferrovias brasileiras.
Indiferentes ao perigo, famílias construíram habitações ao longo da via férrea e, em alguns casos, como na Favela do Arará, a distância entre os barracos e os trilhos não passa de dois metros.
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Graças a essa proximidade, alguém menos avisado que tenha deixado sua porta aberta poderá vê-la sendo arrancada pela passagem do trem cargueiro ou mesmo ter as paredes rachadas pela trepidação das muitas toneladas de aço em movimento, prejuízos esses ressarcidos pela MRS, de acordo com os próprios moradores.
O mais grave, no entanto, é o grande risco de atropelamentos. Devido a possibilidade de saques, as locomotivas trafegam com certa velocidade e o aviso de suas buzinas não é páreo para a curiosidade das muitas crianças, e mesmo de indivíduos alcoolizados, que tentam tocar ou embarcar nos vagões. Parece que todo mundo na favela tem pelo menos uma história sobre um parente ou vizinho que perdeu a perna, o braço ou a vida. Histórias macabras ou fantásticas, como a do suicida que ingeriu certa quantidade de "chumbinho" (substância utilizada popularmente como raticida) e que se jogou diante do trem. Foi arrastado por alguns metros, retirado dos trilhos e levado para um hospital onde, coberto de arranhões, sobreviveu!
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A despeito desse problema, das precárias condições de saúde e educação, dos intermináveis tiroteios entre os traficantes locais, quadrilhas rivais e a polícia, há quem prefira permanecer alí pela proximidade com o centro da cidade, já que a solução apresentada pelo poder público foi a remoção para habitações localizadas em áreas distantes. A ameaça de um descarilamento é concreta, mas não parece assustar a comunidade. Em 1984 os mais de 500 moradores de Vila Socó, no município paulista de Cubatão, que construíram barracos sobre um oleoduto da Petrobrás, também não contavam com uma possível tragédia, até voarem pelos ares numa explosão.
Na verdade, o estado, a prefeitura e o governo federal estão cientes de tudo isso mas, num regime onde tudo o que importa são as regras de mercado, o sangue do favelado vale menos que uma latinha de Coca-Cola.
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Carlos Latuff - Cartunista por profissão e fotógrafo por hobby, é um crítico e pesquisador sobre trens, fotografando e denunciando o que vê em sua busca por novas imagens e fatos de nossas ferrovias.

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